Não é por acaso que passamos mais de 1/3 de nossas vidas dormindo. O sono é função vital do ser humano, essencial para reparações metabólicas, depuração de toxinas, consolidação das memórias e relaxamento muscular.

O fato de que grande parcela da população geral tem problemas para dormir com satisfação é algo preocupante já que a desregulação do sono pode trazer consequências deletérias à nossa saúde física e psíquica. As alterações de sono estão relacionadas a quase todos os transtornos mentais e são, muitas vezes, foco do tratamento. A falta de sono pode ser gatilho para desencadear episódio tanto de depressão quanto de mania e está intimamente relacionada à nossa capacidade de atenção e concentração durante o dia.

Não há uma forma correta de dormir, tão pouco uma quantidade de horas ideal já que a necessidade de sono é individual e segue a determinação biológica de cada organismo. O importante é ter uma qualidade satisfatória, um sono reparador durante a noite e uma duração tal que proporcionarão uma sensação de descanso físico e mental ao amanhecer, sem sonolência diurna.

Fatores variados podem estar interferindo na função do sono, desde o estado emocional, nível de estresse e ansiedade até condições clínicas como doenças da tireoide e obesidade. A maior parte das pessoas sofre com insônia mas a sonolência excessiva traz tantos prejuízos quanto a primeira. A avaliação do sono é sempre tarefa complexa e envolve uma participação multiprofissional, desde psiquiatras e psicólogos a endocrinologistas e, por vezes, pneumologistas.

O sono não é apenas um desligamento do cérebro para seu descanso mas sim um estado ativo, cíclico, complexo e mutável com profundas repercussões sobre o funcionamento do corpo e da mente na vigília do dia seguinte.

Por mais que as pessoas busquem alterativas medicamentosas para dormir mais e melhor, as estratégias comportamentais são tão ou mais eficazes para este objetivo e muitas vezes são deixadas em segundo plano.

Estas estratégias comtemplam o que chamamos de Higiene do Sono, um conjunto de orientações e estímulo a mudança de maus hábitos e implementação de rotina saudável para dormir.

Ela consiste basicamente em evitar maus hábitos de sono como horários variáveis de deitar e levantar, permanecer períodos frequentes e longos na cama, uso rotineiro de produtos contendo álcool, tabaco ou cafeína e exercícios físicos vigorosos ou atividades que exijam alto nível de concentração próximos da hora de deitar,  uso frequente da cama para atividades como assistir televisão, ler, estudar, comer ou permitir que o ambiente seja excessivamente iluminado, abafado, desordenado, quente, frio ou que, de alguma forma, não convide ao sono.

Algumas recomendações são simples e possíveis de serem adotadas por todos como evitar dormir durante o dia, melhorar o ambiente do sono, deixando-o confortável, silencioso e escuro, sem estímulos alergênicos como poeira e mofo, encontrar a posição mais adequada para dormir, perder peso quando indicado, já que aumento da massa corporal correlaciona-se com a gravidade e com a frequência da apneia e da hipoxemia (queda de oxigênio no sangue). Por fim, deve-se relaxar ao máximo física e mentalmente pelo menos 2 horas antes de dormir, evitando discutir, resolver problemas, calcular despesas, fazer esforços físicos.

Estas medidas devem ser adotadas de forma gradual e contínua buscando-se efetivamente mudar o hábito de dormir.

Do ponto de vista farmacológico, há disponível um arsenal de medicações que podem ser usadas com o objetivo de melhorar a qualidade e duração do sono, lembrando que o objetivo é sempre temporário, até o reestabelecimento normal das funções próprias de cada organismo de adormecer.

O uso em longo prazo de medicações sedativas e hipnóticas não está recomendado e algumas delas pode trazer prejuízos, como déficits de memória, lentificação do raciocínio, quedas e tonteiras e dependência química e psicológica. É o caso do benzodiazepínicos ou ‘’calmantes’’, reconhecidos pela tarja preta que envolve seus rótulos. Este grupo de remédios, cujo representante mais conhecido é o clonazepam, têm propriedades relaxantes e tranquilizantes, reduzem o nível de estresse e ansiedade momentaneamente e tem aplicações variadas na medicina, desde indução anestésica até tratamento de crises convulsivas. Em função de promoverem este bem estar e provocarem sono, estes remédios são amplamente usados em todo o mundo, muitas vezes indiscriminadamente e sem indicação médica, havendo um potencial significativo de abuso e desenvolvimento de tolerância pelo organismo, ou seja, perdem o efeito com o tempo e há necessidade do aumento da dose.

Alguns antidepressivos possuem efeitos colaterais sedativos, que são oportunamente utilizados para promoverem sono noturno, em doses apropriadas, como é o caso da mirtazapina e trazodona, além dos mais antigos amitriptilina, nortriptilina e imipramina. A suplementação com melatonina, muito comentada na atualidade, pode funcionar para uma parcela das pessoas com problemas de sono, atuando mais na regulação do ciclo sono-vigília e não como indutora de sono.

Utilizar uma ajuda medicamentosa para dormir deve sempre ser pensada como última estratégia, depois de realizadas as etapas comportamentais anteriores e após a resolução das condições que possam estar causando o distúrbio do sono. Elas devem ser prescritas por médicos capacitados de forma cuidadosa e criteriosa, visando uma melhora do sono inicial e já pensando na retirada futura.