Sinais da doença ficam evidentes antes da criança completar três anos. Quadros mais graves levam a impulsividade, irritabilidade, intolerância à frustração e até mesmo autoagressão

Uma síndrome complexa e muito mais comum do que se pensa. Ela afeta pessoas de todas as classes sociais e etnias, mais os meninos que as meninas. Os sintomas podem aparecer nos primeiros meses de vida, mas dificilmente são identificados precocemente. Na maioria dos casos os sinais ficam evidentes antes da criança completar três anos. O autismo, recentemente retratado em uma novela da Rede Globo, não se resume apenas ao universo da ficção, mas ganha contornos mais peculiares na “vida real”, com características específicas em cada caso.

De acordo com Aline Moreira Lucena, Mestre em Ciências da Saúde da Criança e do Adolescente e fonoaudióloga da Nexus Clínica, o transtorno do espectro autista, nome oficial do autismo de acordo com o DSM V (manual diagnóstico e estatístico de Transtornos Mentais) faz parte de um grupo de desordens do cérebro chamado de transtorno invasivo do desenvolvimento (TID), também conhecido como transtorno global do desenvolvimento (TGD). Os sintomas iniciam desde muito cedo e podem ser detectados desde bebês, quando a criança não faz contato e retorno do carinho da mãe ao brincar no colo e até mesmo na hora da amamentação no seio materno. Ao decorrer dos anos, percebe-se ainda que as habilidades de brincar desenvolve-se com atraso e podem parecer repetitivas, incomuns e não evoluem. Cada criança com TEA será diferente nos sintomas apresentados, mas o fato é que todas elas apresentam dificuldades na comunicação e interação social. Elas podem apresentar limitações na comunicação não-verbal, como: expressões faciais, gestos, e o mais comum, contato visual (olho no olho durante a tentativa de comunicar). Os movimentos esterotipados (esquisitos) e repetitivos são muito comuns a esta população.]

Quadros mais graves da doença levam a impulsividade, irritabilidade, intolerância à frustração  e até mesmo a autoagressão. “Algumas pessoas com transtorno do espectro autista também podem apresentar uma hiper-habilidade isolada, como ler precocemente, fazer cálculos em alta velocidade, decorar dados específicos, o que contribui para camuflar o diagnóstico, porque os pais passam a achar que o filho é um gênio”, revela.

Ao longo da história, inclusive, há exemplos de gênios como Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Mozart e Albert Einstein que apresentavam sintomas  característicos da Síndrome de Asperger, um tipo de TEA. “Mas é preciso desfazer o mito de que todo autista tem um superpoder. Os casos de genialidade e os chamados autistas de alto rendimento são mais raros”, esclarece a fonoaudióloga.

Enquanto em países como França, Alemanha e Estados Unidos, os médicos e profissionais da reabilitação são treinados para identificar os transtornos do espectro autista até os três anos, no Brasil, o diagnóstico é feito em média entre os cinco e os sete anos de idade. Cenário este que tende à mudanças. Visto programas como o PREAUT Brasil. Dados recentes divulgados em 2013 pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, uma das fontes mais oficiais no mundo com informações sobre a doença, revela que uma a cada 50 crianças tem o transtorno. Não há estatística oficial entre os brasileiros, mas os especialistas acreditam que a proporção seja semelhante à encontrada em outras partes do mundo.

Quanto ao tratamento, o estudos mais recentes mostram que cada paciente precisa de acompanhamento individual, de acordo com suas necessidades e deficiências. Alguns podem beneficiar-se com o uso de medicamentos, especialmente quando existem comorbidades associadas, ou seja, quando outras doenças surgirem em decorrência da síndrome”. Porém ressalta-se que as medidas terapêuticas devem ser implementadas tão logo seja levantada a hipótese diagnóstica, em uma intervenção denominada “a tempo” e aplicadas por uma equipe multidisciplinar. Fonoaudiólogo, psicólogo, terapeuta ocupacional e fisioterapeuta são exemplos de profissionais que auxiliam no processo de aquisição de linguagem e desenvolvimento motor da pessoa autista.

Soma-se ao tratamento a compreensão da família acerca do problema, pois ter em casa uma pessoa com formas graves de autismo pode representar um fator de desequilíbrio. É indicado que todos que convivem com o autista, sem exceção, realizem atendimento e  recebam orientação especializados.

Na convivência com um indivíduo vítima do transtorno, também é de extrema importância, segundo pontua Aline, descobrir um meio ou técnica que possibilitem estabelecer algum tipo de comunicação com o autista. Eles têm dificuldade de lidar com mudanças, por menores que sejam. Uma alternativa viável é manter o seu mundo organizado e dentro da rotina, e antecipar por meio da fala, ou imagens, figuras, qualquer tipo de mudança, antes que ela ocorra, para evitar desorganização do autista. Outra dica é dar funcionalidade aos movimentos estereotipados ou repetitivos do paciente. Um acompanhamento contínuo e eficaz pode proporcionar qualidade de vida para o autista e todos aqueles que pertencem ao seu vínculo. Além disso, carinho e amor são ingredientes fundamentais.